A arte de perceber as oportunidades: O que o outro está me dando?

No jiu jitsu e nas artes marciais em geral é muito importante observar o adversário para ver quais são as oportunidades que ele nos oferece. Por exemplo, um pé muito para frente ou um braço esticado podem nos sugerir alguns ataques específicos, como um De Ashi Harai [1] e uma chave de braço [2].

Chamamos isso, no mundo das artes marciais, de aproveitar o que o outro está nos dando. Algo extremamente simples. Porém porque é tão difícil de ser colocado em prática?

Primeiro, para ver o que o outro nos oferece, precisamos ver o outro, isto é, sair das preconcepções, expectativas de como devo me comportar ou o que devo fazer primeiro e simplesmente ver a realidade ou que acontece no momento. A partir disso possibilidades são visualizadas e movimentos surgem.

Na vida, ver o outro, olhar para fora é ver o que acontece na realidade, a cada momento, a cada instante. Se trocarmos a ideia de adversário pela ideia da vida, poderemos pensar: o que a vida está me dando? E a partir disso, posso me mover de acordo ou indo em direção a essa oportunidade. Assim, precisamos de abertura para observar o que estamos ganhando da vida e de nossos adversários.

Segundo, para lutar aproveitando o que o adversário nos dá precisamos pensar menos e fluir mais. Um braço esticado gera uma chave de braço, um puxão do braço que está sendo atacado expõe o outro braço e uma omoplata surge e assim por diante. A luta, quando praticada de maneira fluída, se torna uma dança onde tudo se conecta, cada movimento surge no final de outro. Não importa quem faz, não importa quem ganha ou perde, importa apenas o momento presente e o fluir através da movimentação do corpo e da mente.

No nosso dia a dia, resistimos muito em mudar, em nos transformar, em fluir a partir dos fatos que acontecem o tempo todo. Não aproveitamos os braço esticados que a vida nos dá e se o aproveitamos não conseguimos reagir e contra-atacar em omoplatas [3], triângulos [4] e raspagens [5], apenas lutamos contra as mudanças.

Viver é mudar, se transformar a cada momento, ver a realidade tal como ela é, tirando proveito daquilo que ela nos oferece.

Nosso adversário real não é outra pessoa, mas sim nosso ego, nossos desejos, nossos vícios.  Aquele que nos ataca durante o treino é apenas uma metáfora para lembrarmos de que realmente precisamos superar e confrontar na nossa própria vida.

Pedro Marcelino

Notas:

[1] De Ashi Harai é uma técnica de judô onde o atacante passa seu pé na parte lateral externa do seu oponente a fim de desequilibrá-lo.

[2] Chave de  braço é um tipo de técnica de torção da articulação do antebraço, a qual causa dor e faz com que o oponente desista, evitando assim uma fratura.

[3] Omoplata, em japonês, Ashi sankaku garami, é uma chave onde usa-se a perna em forma de triângulo prendendo, pressionando e torcendo o ombro a fim de levar o adversário a desistência. Omoplata em português é o antigo nome da escápula.

[4] Triângulo, em japonês, Sankaku jime, é um tipo de estrangulamento utilizando as pernas em forma de triângulo, para prender o pescoço e um dos braços do adversário fazendo com que o adversário desista.

[5] Raspagem é quando um adversário que está por baixo, se defendendo com os braços e as pernas (guarda), aplica uma técnica de desequilíbrio e inverte a situação ficando por cima.

Pedro Marcelino

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Meditação - Iniciou a prática de meditação na adolescência (com seus 14 anos) e a vêm mantendo até os dias de hoje. Praticou com diversos professores, de diversas linhas, se desenvolvendo na meditação budista, com ênfase na tradição Zen. A partir dos seus anos de estudos, pesquisas e experiências, desenvolveu o método das 7 habilidades meditativas, que une a visão oriental e ocidental sobre o autodesenvolvimento. Arte - Na arte, foi ilustrador e animador de diversos projetos da Confor Studio. Trabalhou como animador nos filmes, “Até que a Sbórnia nos separe” e “Cidade dos Piratas”, ambos do estúdio porto alegrense Otto Desenhos Animados. Foi co-autor do Livro-Quadrinhos “Cons – Compreendendo Nossa Evolução” (que está caminhando para a publicação no terceiro idioma – alemão – além do português e inglês). Vivenciando o processo criativo destas e de outras obras, desenvolveu seu método de uso da arte de maneira criativa e ética: a Arte Evolutiva. Artes marciais - Como artista marcial, já praticou: judô, capoeira, jiu jitsu e tai chi chuan. No jiu jitsu (arte marcial que pratica até hoje), foi campeão brasileiro em 2005 e campeão sul brasileiro em 2006. Desde 2012, começou a pesquisar e experimentar o uso das artes marciais no desenvolvimento humano, espiritual, trabalho este que vem chamando de Budoterapia – baseado no caminho do guerreiro pacífico.

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