Urban Yogi

Quanto buscamos desenvolver alguma habilidade precisamos de um modelo para nos inspirar, mesmo que saibamos da possibilidade de jamais sermos como esse modelo, visto que todos os seres são singulares. Este modelo, seja ele abstrato (uma ideia) ou concreto (uma pessoa) é a nossa meta básica, nosso objetivo, a nossa inspiração.

No início de minha prática de meditação eu queria ser alguém evoluído, um ser espiritual que conseguisse se controlar e encontrar em todas as situações o caminho mais sábio. Mas com o passar anos, entendendo que para se desenvolver na meditação é preciso trabalhar duro, comecei a traçar novos objetivos que tornassem a prática meditativa mais acessível. 

Se eu quisesse me tornar um buda e me percebesse (depois treinar, treinar, treinar e treinar!) ainda longe desse objetivo, eu iria certamente me desmotivar.

Assim, precisamos sim de um modelo, mas devemos lembrar sempre que as metas palpáveis, de curto prazo, não nos distanciam dessa meta. Elas são os passos de uma longa caminhada; sem elas a movimentação não é possível.

Voltando a meta, me frustrei bastante também por nascer em uma sociedade que não valoriza a meditação. Muitas vezes eu me perguntava: será que neste mundo ocidental, capitalista, eu poderei me desenvolver na meditação como os monges do tibete ou do japão? Nos dias de melhor humor eu me convencia que sim, e nos dias mais sombrios pensava ser impossível.

Pratiquei zazen, vipássana, fiz muitos trabalhos com energias, tive fenômenos espirituais e ainda continuavam as questões: para onde estou indo? para onde quero ir? que nível posso alcançar com minhas práticas?

E em um determinado momento percebi: não adianta eu ficar tentando ser algo que não posso ser aqui. Então decidi que investigaria aquilo que poderia ser no contexto em que vivo.

Dessa forma, fui desenvolvendo a ideia do urban yogi. O urban yogi (yogue urbano) é um indivíduo que vive na cidade, que partilha da mesma sociedade que eu, mas que se mantém completamente conectado com o estado meditativo e com as práticas meditativas. Como ele não consegue/pode se retirar na natureza – tal como o fazem os yogis – ele busca refúgio em sua própria natureza. Ele faz de seu quarto de meditação, a sua floresta, o seu templo, e de cada pessoa que encontra no seu dia-a-dia, seus colegas de prática, companheiros e professores.

Percebo que ser um urban yogi em um mundo criado para a exploração econômica é muito difícil, mas é o que tenho e aceito isso de braços abertos.

Isso não quer dizer que não sinto atração pelo silêncio da mata, pelo frescor de um pôr do sol em um ambiente não civilizado, mas tento aproveitar o que tenho e, sempre que posso faço os meus retiros, busco o meu refúgio na natureza exterior.

Todo meditador é um amante da natureza, mas assim é pelo fato de se sentir atraído por aquilo que é desintoxicado, natural, espontâneo, não controlado, e não por isso ser um mandamento, uma regra de alguma instituição ou ordem religiosa.

A natureza externa é uma metáfora, um lembrete de nossa natureza interna. Toda a beleza que vemos fora de nós quando estamos em um ambiente natureza, deve nos lembrar que isto também existe no nosso âmago. Mas pelo simples fato de não estarmos nos vendo realmente, isso não é percebido.

Nossa mente desperta existe, existiu e sempre existirá! O que falta é nos conectarmos com ela.

Por fim, ser um urban yogi é a meta essencial do meu método de meditação. Estar no mundo, mas não pertencer a ele. Ser um homem e ao mesmo tempo um ser cósmico. Como tudo na meditação um paradoxo, uma contradição.

Pedro Marcelino

Pedro Marcelino

http://escrevendocomimagens.blogspot.com/

Meditação - Iniciou a prática de meditação na adolescência (com seus 14 anos) e a vêm mantendo até os dias de hoje. Praticou com diversos professores, de diversas linhas, se desenvolvendo na meditação budista, com ênfase na tradição Zen. A partir dos seus anos de estudos, pesquisas e experiências, desenvolveu o método das 7 habilidades meditativas, que une a visão oriental e ocidental sobre o autodesenvolvimento.Arte - Na arte, foi ilustrador e animador de diversos projetos da Confor Studio. Trabalhou como animador nos filmes, “Até que a Sbórnia nos separe” e “Cidade dos Piratas”, ambos do estúdio porto alegrense Otto Desenhos Animados. Foi co-autor do Livro-Quadrinhos “Cons – Compreendendo Nossa Evolução” (que está caminhando para a publicação no terceiro idioma – alemão – além do português e inglês). Vivenciando o processo criativo destas e de outras obras, desenvolveu seu método de uso da arte de maneira criativa e ética: a Arte Evolutiva.Artes marciais - Como artista marcial, já praticou: judô, capoeira, jiu jitsu e tai chi chuan. No jiu jitsu (arte marcial que pratica até hoje), foi campeão brasileiro em 2005 e campeão sul brasileiro em 2006. Desde 2012, começou a pesquisar e experimentar o uso das artes marciais no desenvolvimento humano, espiritual, trabalho este que vem chamando de Budoterapia – baseado no caminho do guerreiro pacífico.

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