O problema do eu

Muito se tem falado na história da humanidade sobre autoconhecimento, sobre conhecer a si mesmo, mas o que é esse si mesmo? O que é o eu? Alguém já se perguntou sobre isto?

Introdução

Se quisermos aprofundar na questão do eu, precisamos abstrair um pouco da realidade fenomênica, sensorial e pensar um pouco sobre esta questão. O que é o eu? O que constitui o eu? Existe ou não um eu?

Definição

Ego, ser pensante, personalidade, consciência são todos nomes para nomear a experiência que cada um tem da própria individualidade. Eu me percebo, eu me sinto, eu me diferencio dos outros e do ambiente e percebo uma continuidade deste eu, dia após dia.

Com esse raciocínio limitamos o que pode ser o eu: percepção da individualidade e continuidade. No entanto, sabemos também que este problema foi e ainda tem um lugar especial no pensamento do extremo oriente. Basicamente as teorias do eu podem ser dividas em 2 grupos: daqueles que acreditam que existe um eu e de outro que acredita que não existe um eu.

Grupo do Eu

O eu neste grupo seria a essência imortal de todos os seres, o que é chamado de atman, ou alma individual que se contrapõe a ideia de alma universal, paramatman. No entanto, o atman não é o eu percebido comumente pelas pessoas ou a noção de eu enquanto personalidade definida pela memória e noção social de identidade. Este eu, o atman ou self, seria algo mais profundo que estaria em um nível inconsciente do ser humano. Esta é a ideia adotada no Hinduísmo e em várias filosofias do oriente, porém Sidarta Gautama[1] (conhecido como Buda) encontrou um problema nesta linha de pensamento. Segundo a ideia dele, em um nível mais profundo essa noção de diferenciação e continuidade não passa de um fenômeno mental, de uma percepção distorcida, de fato não estamos separados do todo e não temos uma permanência para não mudar de momento a momento; continuar. Assim chegamos na ideia do segundo grupo: não eu.

Grupo do não Eu

A ideia do não eu é denominada no budismo de anatman. Esta ideia é muitas vezes mal interpretada como a negação da existência dos indivíduos ou partes sutis da consciência, mas não é isso.

No pensamento Budista existe a ideia da percepção de si mesmo, autoconsciência, e da sensação de individualidade e continuidade, só que isso seria uma etapa ainda rudimentar, superficial de percepção da própria mente.

Existe uma mente mais rudimentar ainda (do que a já citada acima), responsável pelo raciocínio, memória, atenção, isto é, os processos psicológicos e existe também algo mais profundo, muitas vezes tocado em níveis diferenciados de consciência ou em fenômenos paranormais, parapsíquicos.

Assim, temos: 1) a mente grosseira; 2) mente sutil e, se continuarmos nesta linha em direção ao não eu teremos uma dimensão, não dual, de extrema sutileza, ou seja, da 3) mente muito muito sutil ou sutilíssima.

Nesta dimensão chegamos perto da natureza do ser e da natureza da realidade onde encontramos bem aventurança, equilíbrio, paz, compaixão, interdependência e vacuidade. Isto é anatman.

Complementariedade

Eu não vejo conflito entre estas ideias. Penso que a ideia Hindu do atman complementa a ideia Budista do anatman, visto que existe nessa complementariedade o paradoxo das duas verdades (verdade relativa e verdade transcendental) algo existe e ao mesmo tempo não existe.

O eu, o self, o ego existe, pois o utilizamos no nosso dia a dia e o percebemos, porém se o investigarmos com muita profundidade chegaremos a um ponto de não existência de um eu, ou seja, da percepção dos fenômenos enquanto vazios, mutáveis e interdependentes.

Isto é muito importante para não fazermos um processo de autoconhecimento que se limita somente a mente grosseira. Se desejo me conhecer preciso ir em direção a minha essência, preciso sair da minha identidade social e buscar me conhecer enquanto alma, espírito ou mente sutil. E se continuo neste processo vou em direção ao meu princípio essencial e ao princípio essencial da realidade e do universo – mente sutilíssima.

Por isso, para uma compreensão mais profunda da realidade devemos entender minimamente o que é o eu.

Implicações

E quais implicações disto?

No nosso dia a dia, podemos mirar para as dimensões do nosso eu e mudar o foco para nos olharmos. Quem sou eu, enquanto mente grosseira? Quem sou eu, enquanto mente sutil? Onde isto se manifesta? E quem sou eu enquanto mente sutilíssima, onde posso perceber isto?

Tudo aquilo que é mais humano, social, como a linguagem, as regras, as teorias, estimulam mais a nossa mente grosseira e por isso podemos ver ela se manifestando. Já tudo aquilo que é menos humano e mais natural, social, não linguístico, sem regras, fluído, momento presente, estimula mais nossas partes sutis e, portanto, permite que nos vejamos de maneira mais abrangente.

Por fim, cada mergulho no momento presente durante a meditação é uma oportunidade de nos encontrarmos, de encontrarmos uma dimensão nossa não diferenciada e impermanente, fluída. E isto, sem sombra de dúvidas, é o verdadeiro autoconhecimento e não o conhecimento apenas da própria personalidade.

Pedro Marcelino

[1] Faço questão de chamar o buda histórico de Sidarta por dois motivos: 1) para mostrar que ele era uma pessoa e não um ser celestial ou um mito e 2) para mostrar que ele é um dos despertos (buddha) que conseguiram ver a realidade de um nível mais profundo. Já existiram despertos antes dele e ainda existirão no futuro.

Pedro Marcelino

http://escrevendocomimagens.blogspot.com/

Meditação - Iniciou a prática de meditação na adolescência (com seus 14 anos) e a vêm mantendo até os dias de hoje. Praticou com diversos professores, de diversas linhas, se desenvolvendo na meditação budista, com ênfase na tradição Zen. A partir dos seus anos de estudos, pesquisas e experiências, desenvolveu o método das 7 habilidades meditativas, que une a visão oriental e ocidental sobre o autodesenvolvimento.Arte - Na arte, foi ilustrador e animador de diversos projetos da Confor Studio. Trabalhou como animador nos filmes, “Até que a Sbórnia nos separe” e “Cidade dos Piratas”, ambos do estúdio porto alegrense Otto Desenhos Animados. Foi co-autor do Livro-Quadrinhos “Cons – Compreendendo Nossa Evolução” (que está caminhando para a publicação no terceiro idioma – alemão – além do português e inglês). Vivenciando o processo criativo destas e de outras obras, desenvolveu seu método de uso da arte de maneira criativa e ética: a Arte Evolutiva.Artes marciais - Como artista marcial, já praticou: judô, capoeira, jiu jitsu e tai chi chuan. No jiu jitsu (arte marcial que pratica até hoje), foi campeão brasileiro em 2005 e campeão sul brasileiro em 2006. Desde 2012, começou a pesquisar e experimentar o uso das artes marciais no desenvolvimento humano, espiritual, trabalho este que vem chamando de Budoterapia – baseado no caminho do guerreiro pacífico.

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