A aceitação na meditação

Aceitar é ver as coisas como elas são.

Somos ensinados, pelo menos na maior parte do ocidente, que aceitar é sinônimo de aprovação, de considerar algo bom, de se resignar, se submeter a algo. No entanto, o significado deste conceito no pensamento oriental é bem diferente. O significado desta ideia se difere tanto que é impossível resumirmos a mesma de maneira simples e objetiva.

Aceitação é uma qualidade, uma atitude e um estado de visão clara da realidade. Entretanto, para aprofundar neste conceito , esta visão clara pode ser caracterizada por 3 marcas: 1) não julgamento; 2) compreensão; 3) não resistência.

Não julgamento

Desde que amadurecemos o suficiente para compreender que a realidade é complexa e que nem sempre podemos entender a causa de tudo, conseguimos perceber que julgar é um comportamento pouco útil. Quando julgo, me coloco acima dos outros e, a partir da minha perspectiva, defino o que é melhor, o que é pior, o que é certo e o que é errado.

Para o nosso desenvolvimento interior, espiritual [1], precisamos aprender o oposto, isto é, não julgar, permanecermos abertos, sensíveis a perspectivas dos outros, tentar ver o problema do outro a partir da perspectiva dele. Não julgar depende também do esforço da compreensão e da não reatividade, pois caso contrário se torna apenas um exercício de indiferença.

Outro ponto importante é entender que quando nos ocupamos do nosso desenvolvimento interior não nos ocupamos, imediatamente, dos problemas do mundo. Na vida cotidiana julgar está ligado com avaliar, criticar, competências muitos úteis se usadas no contexto certo, porém estamos falando do contato com nós mesmos e no contato com seres humanos. Se estou diante de mim mesmo, ou de outro ser humano, posso manter uma qualidade de ser bem específica, que não é a mesma que precisaria ter caso estivesse avaliando um produto para comprar em uma loja.

Compreensão

O desenvolvimento da aceitação pode ser mais ou menos emocional, porém sempre passará por um nível de cognição, de compreensão de um problema e de suas causas. Se estamos diante de um fato que reprovamos moralmente, por exemplo, alguém jogando um lixo no chão, sabemos que existe uma causa para aquele comportamento. Talvez aquele indivíduo não tenha recebido uma educação que o fizesse ver que jogar o lixo no chão será prejudicial a ele e aos outros. Talvez ele tenha um problema muito sério para resolver naquele momento e acabou agindo daquela maneira por estar no piloto automático.

Lembre-se que nosso foco com a meditação e com a aceitação é ver mais claramente a realidade, assim fazermos o exercício de não julgar e de compreender-nos será de grande ajuda para diminuirmos nossas distorções mentais dos acontecimentos. Se fiz algo que condeno moralmente, preciso respirar, e avaliar o que me levou a isso. Se reprovo e vejo que me causa dano e/ou causa danos a outros seres, tento encontrar um meio de não repetir isto. Neste momento, não adiantar me sentir culpado, me agredir, visto que o que fiz já está feito. Preciso economizar energias para mudar minha ação, para não repetir o mesmo comportamento.

Não resistência

A não resistência é ao mesmo tempo se deixar levar e ser resistente, resiliente. Podemos pensar na não resistência a dor, por exemplo. Se percebemos que um relacionamento afetivo nosso está acabando e não há nada que possamos fazer, talvez a solução seja a não resistência, o deixar o término acontecer, porém isto exigirá da pessoa uma certa resistência, resiliência a dor emocional que virá com o término. A compreensão verdadeira de que todos os fenômenos levam a insatisfação e sofrimento pode diminuir a resistência a dor.

Uma analogia com a não resistência é o nadar. Não resistir é nadar a favor da correnteza e não contra a mesma. No entanto, lembre-se que a correnteza do seu mundo interior está dentro de você, assim sendo, pode ser que nadar a favor da correnteza do mundo externo seja nadar contra a correnteza do seu mundo interior.

Considerações finais

Estar mais no momento presente nos permite ver com melhor qualidade as coisas como elas são. Podemos olhar para o passado como um professor e amigo, para o futuro como olhamos para o horizonte quando andamos numa estrada, porém é no presente que devemos buscar a estabilidade, o equilíbrio e a força para orientar a nossa vida. Aceitar [2] é ver claro.

Um ser humano que aceita, respeita, compreende, ouve, dá o espaço, não prende, não controla, simplesmente interage e compartilha quando isto se faz necessário. Uma imagem boa para o entendimento deste conceito é imaginar uma pessoa que não se surpreende nem se incomoda com o jeito de ninguém. Pode ser uma pessoa religiosa, pode ser um punk, pode ser um otaku ou uma pessoa muito escolarizada, um animal, um inseto ou uma planta, ela trata todos com o mesmo respeito, prontidão e aceitação. Ver claro também é ver por detrás das aparências. Ver o ser humano e não o seu uniforme.

Enfim, quando aceitamos temos menos expectativas, menos “você deveria…”, somos menos conselheiros, abrimos mão do controle.

Pedro Marcelino

[1] Espiritual é utilizado aqui no sentido de vida subjetiva, mundo interior do ser humano e não está fazendo alusões ao imaterial ou entidades não físicas.

[2] Toda a ideia da aceitação utilizada neste texto serve tanto para o mundo exterior quanto para o mundo interior. Na meditação tudo o que percebemos é fenômeno, realidade perceptiva, não importando se é interior ou exterior.

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Pedro Marcelino

http://escrevendocomimagens.blogspot.com/

Meditação - Iniciou a prática de meditação na adolescência (com seus 14 anos) e a vêm mantendo até os dias de hoje. Praticou com diversos professores, de diversas linhas, se desenvolvendo na meditação budista, com ênfase na tradição Zen. A partir dos seus anos de estudos, pesquisas e experiências, desenvolveu o método das 7 habilidades meditativas, que une a visão oriental e ocidental sobre o autodesenvolvimento.Arte - Na arte, foi ilustrador e animador de diversos projetos da Confor Studio. Trabalhou como animador nos filmes, “Até que a Sbórnia nos separe” e “Cidade dos Piratas”, ambos do estúdio porto alegrense Otto Desenhos Animados. Foi co-autor do Livro-Quadrinhos “Cons – Compreendendo Nossa Evolução” (que está caminhando para a publicação no terceiro idioma – alemão – além do português e inglês). Vivenciando o processo criativo destas e de outras obras, desenvolveu seu método de uso da arte de maneira criativa e ética: a Arte Evolutiva.Artes marciais - Como artista marcial, já praticou: judô, capoeira, jiu jitsu e tai chi chuan. No jiu jitsu (arte marcial que pratica até hoje), foi campeão brasileiro em 2005 e campeão sul brasileiro em 2006. Desde 2012, começou a pesquisar e experimentar o uso das artes marciais no desenvolvimento humano, espiritual, trabalho este que vem chamando de Budoterapia – baseado no caminho do guerreiro pacífico.

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