Habilidades Meditativas

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Meditação é a arte de integrar, sintonizar, harmonizar nossa mente e nosso corpo com a natureza (nossa, do planeta e do universo).

Introdução

Por ser algo tão difícil de pôr em palavras, muitas vezes a meditação [1] é quase impossível de ser ensinada. No entanto, a partir da observação atenciosa da meditação e de meditadores, é possível ver marcas, padrões, movimentos que se manifestam durante esse estado de ser. Dominar esses movimentos exige determinadas habilidades, capacidades ou competências.

Uma analogia que simplifica este processo é a do ato de dirigir. O que é o ato de dirigir? Existe a possibilidade de simplificá-lo em uma única ação? Dirigir envolve várias ações. Quando se dirige um carro ao mesmo tempo em que se controla o volante, a pessoa precisa estar atenta ao trânsito a sua frente, aos espelhos retrovisores, precisa trocar de marcha de acordo com a velocidade, saber utilizar a embreagem etc. Deste modo não existe uma única ação que resume o processo de dirigir, pois a habilidade de dirigir é uma habilidade global que depende de várias competências. E assim também é a meditação.

Competências da meditação

Desde que comecei a ensinar a meditação, tento observar quais são as habilidades do meditador, o que ele aprendeu para poder promover e manter o estado meditativo (uma habilidade global). Atualmente, venho trabalhando com 7 habilidades básicas para a meditação:

  • Postura
  • Respiração
  • Concentração
  • Atenção Plena
  • Aceitação
  • Compaixão
  • Desidentificação

A postura é o posicionamento do corpo e da mente na hora da prática meditativa. A postura do corpo ideal para quem está aprendendo é aquela que permite a lucidez, o relaxamento e a imobilidade por mais tempo. A postura da mente ideal, ou atitude, é a serenidade observadora, onde você lida gentilmente com os fenômenos sem se envolver intensamente com eles. O meditador é uma testemunha tranquila de cada momento da vida.

A respiração meditativa é a reeducação da respiração para que a mesma seja nasal, mais profunda, diafragmática e relaxada. Existem práticas complementares com exercícios de retenção do alento, contração dos músculos abdominais e utilização da boca que poderão auxiliar o aparelho respiratório nessa mudança de hábito, mas que também tem como fim a respiração natural e espontânea, sem esforço. Além disso, a respiração está intimamente ligada ao relaxamento, que pode ser entendido como a redução das tensões mentais e físicas. No corpo, relaxar significa deixar os músculos descontraírem, a respiração ficar mais profunda e lenta e os batimentos cardíacos diminuírem. Na mente, relaxar é libertar-se das contrações do espírito que se agarra constantemente ao passado e ao futuro. Relaxar é estar no aqui/agora fluindo, boiando como o faz uma folha na superfície da água.

A competência da concentração é a manutenção do foco da consciência num ponto previamente escolhido. Esta competência exige muito esforço e é em muitas escolas uma meta muito importante. No meu ponto de vista, ela é parecida com o desenvolvimento da força muscular. Apesar da força não ser uma capacidade física mais importante que outras, ela participa de muitas competências como o equilíbrio e a agilidade.

A habilidade de manter a atenção plena é, talvez, a principal competência da meditação; porém, se existir sozinha, sem o apoio das outras, poderá ter seu tempo de vida reduzido. Manter a atenção plena é manter a mente alerta, aberta, sem estar dirigida para algum ponto. Quando sua mente está em atenção plena, ela é como a luz de um refletor: muito dissipada e aberta. Quando sua mente está em concentração, ela é focada como a luz de uma lanterna que ilumina uma coisa de cada vez.

A capacidade de aceitar é uma habilidade muito importante, visto que aceitar é não gerar resistência e resistência na meditação é esforço, desgaste, dispersão de energias. Quando domino a competência de aceitar, estou muito mais preparado para manter a atenção focada (concentração) ou aberta (atenção plena) e utilizo também a minha capacidade de relaxar e de manter uma postura ideal. Enfim, é uma competência que recruta outras competências meditativas. Aceitar pode ser tanto o não julgamento quanto o discernimento. Quando aceitamos estamos abertos para a passividade (não julgamento) e para a atividade (discernimento na ação). Tudo dependerá do contexto real. Aceitar não é ser submisso, permissivo; é compreender com sabedoria.

A competência da compaixão é a habilidade de pôr a meditação em movimento, de compartilhar tudo o que se aprendeu com a prática. É possível dizer que, quando um indivíduo sábio está sozinho, ele vive sua felicidade (plenitude), e quando ele está com alguém ele expressa isto através da compaixão. Compaixão é respeitar, ouvir, atentar, estar relaxado, agir com aceitação e manter uma postura meditativa. Compaixão não é ter pena, compaixão é o engajamento de diminuir o sofrimento de todos os seres através da sua ação.

A última habilidade, a desidentificação, é a lição da natureza. É não ter ego, é não pensar em nada e simplesmente fluir, deixar acontecer, se perder na ação. Quando estou desidentificado, na verdade estou identificado com algo mais profundo, maior e dinâmico do que a personalidade, isto é, a própria vida. Este processo é um caminho que busca o nível mais profundo da nossa mente que está depois da mente grosseira, discursiva e dualista que usamos para operar no mundo.

Tradições

O desenvolvimento destas habilidades e da meditação em si não depende da adesão à nenhuma tradição espiritual, seja ela oriental ou ocidental; não depende de um sistema de crenças, nem mesmo de rituais. A meditação é um desenvolvimento potencial de qualquer mente humana. A cor da pele, a língua, a raça, o nível de escolaridade, a religião não impossibilitam a pessoa de aprender esta metodologia. Meditação não é sobre a mente, mas sim sobre o que vem depois dela.

Objetos

Os objetos [2] de concentração podem ser escolhidos livremente para o desenvolvimento das habilidades. Se me concentro melhor com a respiração, a uso, mas se prefiro um mantra, posso usá-lo também. É importante lembrar que a preferência está relacionada diretamente a motivação e esta a disciplina. Precisamos de continuidade de prática, deste modo a motivação nos interessa. Para a concentração da mente, eleja o objeto que mais lhe agrada.

Giros

Além do treinamento sistemático das habilidades, quando se pratica este método temos também os giros que são treinos com o foco em pontos muito importantes para a meditação que não fazem parte das  7 habilidades. No primeiro giro geralmente aplico todas as competências com ênfase na imobilidade [3], no segundo giro a ênfase recai no movimento, no terceiro nas emoções e assim por diante.

Considerações finais

Ao desenvolver e praticar estas habilidades, temos um roteiro bem específico para tornar nossa mente mais meditativa. Esse trabalho, é importante lembrar, é muito mais um trabalho de tirar, de desfazer, de limpar, de despir o nosso organismo psicofisiológico do que de acrescentar ideias, conteúdos, ideologias.

Finalmente, o caminho da meditação, retomando a epígrafe, nos leva diretamente para a natureza ou para aquilo que é natural, para a substância do ser e do universo não tocada pelo intelecto do homem e de sua civilização. Se o caminho que percorre em sua meditação não o está levando a isso, examine-o, pois possivelmente existe algum equívoco. Se ele está, continue, pois a jornada é longa, mas posso lhe garantir, muito prazerosa!

Pedro Marcelino

[1] Entendo meditação de maneira bem abrangente, como sinônimo de estado meditativo: um estado de aprofundamento da mente no aqui-agora, no momento presente que estimula a aceitação e a benevolência consigo mesmo e com os outros. Quando quero me referir as técnicas utilizo a expressão técnica de meditação.

[2] Os objetos de concentração são qualquer coisa em que a pessoa coloca o foco durante alguma prática meditativa. Os mais comuns são: 1) respiração; 2) sons; 3) visualizações; 4) mobilização de energias sutis; 5) movimento do corpo; 6) foco em partes do corpo etc.

[3] Imobilidade é a ausência de movimento. Na meditação isto é muito importante, pois ensina a pessoa a ser menos reativa e a lidar de maneira mais consciente com os impulsos. É um treinamento importante de autocontrole.

Photo by Joshua Lanzarini on Unsplash

Pedro Marcelino

http://escrevendocomimagens.blogspot.com/

Meditação - Iniciou a prática de meditação na adolescência (com seus 14 anos) e a vêm mantendo até os dias de hoje. Praticou com diversos professores, de diversas linhas, se desenvolvendo na meditação budista, com ênfase na tradição Zen. A partir dos seus anos de estudos, pesquisas e experiências, desenvolveu o método das 7 habilidades meditativas, que une a visão oriental e ocidental sobre o autodesenvolvimento.Arte - Na arte, foi ilustrador e animador de diversos projetos da Confor Studio. Trabalhou como animador nos filmes, “Até que a Sbórnia nos separe” e “Cidade dos Piratas”, ambos do estúdio porto alegrense Otto Desenhos Animados. Foi co-autor do Livro-Quadrinhos “Cons – Compreendendo Nossa Evolução” (que está caminhando para a publicação no terceiro idioma – alemão – além do português e inglês). Vivenciando o processo criativo destas e de outras obras, desenvolveu seu método de uso da arte de maneira criativa e ética: a Arte Evolutiva.Artes marciais - Como artista marcial, já praticou: judô, capoeira, jiu jitsu e tai chi chuan. No jiu jitsu (arte marcial que pratica até hoje), foi campeão brasileiro em 2005 e campeão sul brasileiro em 2006. Desde 2012, começou a pesquisar e experimentar o uso das artes marciais no desenvolvimento humano, espiritual, trabalho este que vem chamando de Budoterapia – baseado no caminho do guerreiro pacífico.

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