Lembrança de si mesmo

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A jornada do verdadeiro autoconhecimento nos leva em direção à uma parte profunda de nosso ser que, na maioria das vezes, não suspeitamos que existe: algo sem nome, sem forma, sem limites, que já existia muito antes de nosso nascimento.

Introdução

Lembrar de si mesmo [1], recuperar cons [2], entrar em contato com sua parte mais profunda, lembrar de sua essência, autoconhecimento verdadeiro, todas são expressões que falam da mesma coisa: da necessidade de não se contentar com uma autoinvestigação superficial.

Argumentação

A parte mais importante da reflexão sobre si mesmo é a parte da experiência. Muitas vezes os seres humanos estão mais interessados na compreensão de um conceito e propagação do mesmo do que na sua realização.

Por exemplo, muitas pessoas falam sobre autoconhecimento, escrevem livros sobre autoconhecimento, forçam outras pessoas a buscar algum processo de autoconhecimento, mas nunca de fato realizaram plenamente o que vem a ser o autoconhecimento.

Quando os professores de meditação do oriente e os muitos sábios ocidentais falaram sobre autoconhecimento eles não estavam citando apenas nossos vícios e virtudes, habilidades, predisposições da nossa mente grosseira, estavam apontando diretamente para uma experiência profunda e difícil de ser posta em palavras: a do contato com uma parte de nosso ser que transcende o corpo e a mente discursiva.

Para Ramana Maharshi, sábio indiano do século XIX, a auto-realização era uma jornada profunda onde o eu pequeno, a personalidade, a mente grosseira é superada, transcendida para a vivência de algo mais amplo, impessoal, não limitado. Uma mente cósmica, espiritual, o que para esse sábio poderia ser chamado de lembrança de si mesmo.

O sábio Zen japonês do século XIII, Dogen, deu muita ênfase ao processo de recuperar a mente desperta, lúcida, iluminada, que era a natureza do ser e do próprio universo. Esta mente desperta, chamada no budismo de “natureza búdica” [3], quando realizada permitia que o indivíduo vivesse de acordo com as leis espirituais mais profundas de maneira espontânea, e este poderia ser chamado de verdadeiro autoconhecimento, lembrança de si mesmo ou autorecuperação.

Outro ponto importante, é que essa natureza desperta que Dogen tanto frisava não se tratava da mente grosseira, nem da mente sutil, mas sim de algo mais profundo ainda, caracterizada pela vacuidade e luminosidade, uma mente muito sutil, que estaria com os seres mesmo depois que eles alcançassem a libertação do ciclo de renascimentos e mortes, independentemente de sua cultura, gênero, crenças etc.

Na Conscienciologia e no espiritismo, duas escolas espiritualistas do ocidente, a ênfase da lembrança de si mesmo foi posta nas informações advindas da mente sutil, a parte da mente que continua, vida após vida. Como esta mente possui muito mais tempo de vida que a mente grosseira, ela possui uma visão bem mais ampla que a mente grosseira ( a personalidade que morre juntamente com o corpo no final da cada vida).

Etapas para a lembrança de si mesmo

Deste modo, depois desta reflexão, podemos estabelecer algumas etapas da lembrança de si mesmo. Pensando de uma maneira didática para os praticantes de meditação ou de qualquer outra técnica de autoconhecimento profundo.

  • Organismo físico:

A primeira tarefa do buscador de si mesmo é conhecer, dominar, compreender o funcionamento do seu próprio organismo físico.

Saber utilizar o corpo, ter flexibilidade física, equilíbrio, força, resistência, caminhar, correr, nadar, pular, pendurar-se, utilizar o corpo para se expressar e se comunicar (dança e linguagens), utilizar o corpo para se defender (luta), saber promover a cura através do uso do próprio corpo, superar os limites condicionantes e paralisantes que a sociedade impõe para o uso do corpo físico.

Saber se alimentar, ou em outras palavras, buscar alimentos saudáveis e espiritualizantes [4] para que sua saúde e equilíbrio de sua parte sútil não sejam comprometidos.

Saber vivenciar sua afetividade, sua sexualidade, não ter repressões que limitam eticamente sua manifestação.

Aprender a pensar e vivenciar livremente suas emoções. Aprender a pensar é primeiramente controlar o pensamento e não ser controlado por ele. Saber silenciar a mente quando preciso, saber estimular a mente para ela agir com clareza quando isto vir a ser necessário. E, principalmente, viver no momento presente. Estar com o corpo e a mente no mesmo lugar.

As emoções seguem a mente. Uma mente livre, flexível, criativa permite que as emoções fluam, se renovem, criem, surjam, desapareçam, sem resistência e com discernimento e é isso que pode ser considerado como um ato de maturidade emocional e mental. Todas emoções são boas e úteis. Todos pensamentos possuem um potencial criativo.

  • Organismo sutil:

Depois que o organismo físico foi equilibrado, realizado vem a tona a necessidade de desenvolver o organismo sutil. Antes da parte grosseira ser superada pensar na parte sutil é antecipar as coisas, é como explicar a teoria do inconsciente coletivo para uma turma da primeira série do ensino fundamental. Tudo tem o seu tempo.

O organismo sutil é composto de duas partes importantes, não divisíveis na realidade, mas que precisam ser separadas para o melhor entendimento do assunto.

Primeiro, as energias, o chi, o ki, o prana, os fluídos, que unem o corpo físico à mente sutil. Estas energias para se equilibrarem precisam circular livremente no organismo de modo que possam se concentrar ou se dispersar de acordo com os movimento e necessidades do corpo e da mente. Além disso, o ser humano pode também compartilhar estas energias com outros seres para realizar processos de cura e de ajuda não física.

Realizar as próprias energias também é ver a dinâmica delas na vida, no universo. Perceber as energias dos ambientes, das pessoas, dos animais, de todos tipos de vida que não é percebido pelos 5 sentidos ou por tecnologias humanas atuais.

Outra ponto importante desta segunda parte de autorealização, é saber experimentar de modo intenso a mente sutil. Todos nós vivenciamos a mente sutil, exclusivamente em dois momentos das nossas vidas: 1) no sono; 2) na morte.

No sono o corpo sonha, organiza as informações do dia-a-dia enquanto a consciência se desloca para a mente sutil e tem experiências numa realidade não física, numa outra dimensão comum a seres que já não estão mais vivos e a outras pessoas que também vivenciam este processo. Esta experiência já foi chamada de viagem astral, desdobramento, projeção da consciência, etc.

No budismo tibetano tântrico, em algumas escolas de yoga, na sociedade teosófica e na conscienciologia existem muitos treinamentos específicos para que o indivíduo domine o processo de transferir a consciência para sua mente sutil no sono e, também aprender a descartar o corpo com lucidez no momento da morte.

Assim, realizar a si mesmo começa com o corpo físico e depois caminha em direção ao organismo não físico, sutil. No organismo sutil recuperamos o domínio e conhecimento das energias e das experiências lúcidas na mente sutil e, a partir disso, estamos preparados para organismo não fenomênico.

  • Organismo não fenomênico:

A vivência, a recuperação, a lembrança, o conhecimento do organismo não fenomênico pode ser tido como verdadeiro autoconhecimento ou experiência de não eu (anatman).

Nesta fase pouco pode ser dito, visto que o nosso pensamento discursivo e nosso cérebro físico é muito simples para lidar com as informações e experiências ampliadas desta experiência.

Esta experiência já foi chamada na história de samadhi, nirvana, cosmoconsciência, autorealização etc.

O que caracteriza ela é a vivência da essência enquanto algo que não é fixo (permanente), não é limitado pelo espaço e tempo, não possui forma. A essência da consciência e de todos seres do universo.

Depois desta experiência os indivíduos relatam que possuem uma visão completamente espiritual da vida, conseguem respostas para as perguntas filosóficas essenciais (quem sou, de onde vim, para onde vou e qual é o sentido da vida), possuem mais sentidos de percepção do que apenas os 6 sentidos e vivenciam espontaneamente as qualidades que são atribuídas aos sábios e clarividentes da história da humanidade.

Com esta exposição concluímos que mais importante do que fazer uma lista de vícios e virtudes ou ficar anos tentando entender a mente grosseira é importante treinar o organismo físico para poder experimentar o organismo sutil e o organismo não fenomênico. Uma vez que isso é realizado, relembrado, recuperado o indivíduo possui um conhecimento profundo sobre o universo e sobre si mesmo e, no meu humilde ponto de vista, é isto que pode ser chamado de autorealização ou recuperação de cons.

Pedro Marcelino

[1] Expressão que o sábio indiano Ramana Maharshi utilizava para se referir ao autoconhecimento profundo ou verdadeiro.

[2] Na conscienciologia, a recuperação de cons, é utilizada para definir o processo da pessoa relembrar quem ela é, de onde ela veio e o que ela tem que fazer aqui, esta vida.

[3] Tatagatagarbha em sânscrito e Busshou em japonês. Teoria do budismo mahayana que afirma que a essência de todos os seres é desperta ou a de um buddha.

[4] Alimentação livre de crueldade animal e de outros seres.

Photo by Simon Migaj

Pedro Marcelino

http://escrevendocomimagens.blogspot.com/

Meditação - Iniciou a prática de meditação na adolescência (com seus 14 anos) e a vêm mantendo até os dias de hoje. Praticou com diversos professores, de diversas linhas, se desenvolvendo na meditação budista, com ênfase na tradição Zen. A partir dos seus anos de estudos, pesquisas e experiências, desenvolveu o método das 7 habilidades meditativas, que une a visão oriental e ocidental sobre o autodesenvolvimento.Arte - Na arte, foi ilustrador e animador de diversos projetos da Confor Studio. Trabalhou como animador nos filmes, “Até que a Sbórnia nos separe” e “Cidade dos Piratas”, ambos do estúdio porto alegrense Otto Desenhos Animados. Foi co-autor do Livro-Quadrinhos “Cons – Compreendendo Nossa Evolução” (que está caminhando para a publicação no terceiro idioma – alemão – além do português e inglês). Vivenciando o processo criativo destas e de outras obras, desenvolveu seu método de uso da arte de maneira criativa e ética: a Arte Evolutiva.Artes marciais - Como artista marcial, já praticou: judô, capoeira, jiu jitsu e tai chi chuan. No jiu jitsu (arte marcial que pratica até hoje), foi campeão brasileiro em 2005 e campeão sul brasileiro em 2006. Desde 2012, começou a pesquisar e experimentar o uso das artes marciais no desenvolvimento humano, espiritual, trabalho este que vem chamando de Budoterapia – baseado no caminho do guerreiro pacífico.

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