Desenho, crenças e autodesenvolvimento

person holding black pencil

A principal barreira que impede você de ver o desenho como uma ferramenta de crescimento, autoevolução e não uma mera habilidade egóica, é você mesmo.

Desenho enquanto forma

Diferentemente das línguas estrangeiras, totalmente desconhecidas pela maioria dos estudantes, o desenho é uma linguagem que precisa ser relembrada, uma vez que já desenhávamos quando criança. No entanto, parece haver algo misterioso que faz com que os adultos além de esquecer que já desenharam um dia, mantenham um desenho estagnado no tempo, que não acompanha suas aptidões cognitivas desenvolvidas com a maturidade.

Mas porque isso acontece?

Primeiro, pelo simples fato de o desenho, assim como outras habilidades artísticas, criativas e sensíveis, não serem valorizadas numa sociedade lógica, yang, masculina, pragmática.

Segundo, durante a infância somos muito sensíveis as críticas que recebemos. Se alguém falar que nosso desenho não é bom ou ridicularizá-lo em público provavelmente passaremos a vida toda estagnados nessa época de desenvolvimento e, acreditaremos que não somos capazes de desenhar.

De acordo com Peirce (p.76) “Nossas crenças orientam nossos desejos e dão contorno a nossas ações.” O que nos leva a entender que somos orientados não pelo que vivemos, mas sim pelo que acreditamos. Somos animais sociais racionais definidos pelos nossos sistemas de crenças.

Por isso, pensamentos como “eu não sei desenhar”, “eu não posso desenhar,” “desenhar é só para aqueles que têm dom” precisam ser questionados, caso queiramos progredir nessa área.

Um exercício mental para conscientização é questionar a si mesmo:

  1. Eu já tive aulas de linguagem do desenho?
  2. Por quantos anos?
  3. Se eu aprendi a ler e a escrever tendo aulas, fazendo exercícios, me esforçando, não teria o desenho que ser semelhante?
  4. Eu acredito que desenhar é um processo mágico ou místico?

A partir dessas reflexões é possível que algumas idéias reveladoras surjam na mente de vocês. Primeiro, o quanto vocês se dedicaram ao desenho? E segundo, qual é a crença que vocês têm quanto ao aprendizado do desenho? Ele é possível de ser aprendido ou não?

Abaixo, uma tabela que mostra o desenvolvimento da escrita imagética (termo que significa também desenho, mas que foca mais no sentido de desenho enquanto escrita). Essa tabela o ajudará na reflexão sobre uma questão mais específica: qual é o meu nível atual com a linguagem do desenho ou escrita imagética?

escala_nivel_desenho

Estou no nível A, pois só sei fazer garatujas, rabiscos, bem infantis?

Estou no nível B, pois consigo copiar, reproduzir desenhos somente pela observação?

Estou no nível C, pois consigo dominar as regras do desenho: observação, composição, formas e espaços, luz e sombra, perspectiva etc?

Estou no nível D, pois já tenho um estilo definido que me difere dos demais e que conversa com a história da linguagem do desenho?

Ou estou no nível E, pois já domingo muito bem a linguagem do desenho e a escrita imagética, sou fluente, e estou totalmente ciente do meu discurso, da minha intenção, da ideologia por detrás do que escrevo?

Reconhecer o nosso nível com a linguagem do desenho, além de diminuir os possíveis bloqueios, nos dá uma maior compreensão de onde estamos e para onde precisamos caminhar.

Além disso, a questão da competição, da comparação com o outro começa a diminuir. Se entrei na aula de desenho e só faço rabiscos é porque estou no nível A. Se o meu colega que entrou junto comigo já consegue dominar as regras do desenho é porque ele já está no nível C e, provavelmente já teve aulas de desenho. Ele não é melhor que eu. Ele somente possui mais experiência com essa linguagem do que eu.

O famoso professor de desenho do estúdio Disney, Walt Stantfield, falou que para você começar a desenhar bem (depois do nível C) você precisa fazer 10.000 desenhos ruins antes (STANCHFIELD, 2011, P.1). O que significa isso? No mínimo 2 interpretações:

  1. Não literal: Que você irá ter que desenhar muito, que praticar muito para melhorar o seu desenho.
  2. Literal: Que, em média, demoram 10.000 desenhos para conseguirmos fluência. 10 anos de estudo, 2,7 desenho por dia, 1000 desenhos por 10 anos.  

E para quê tudo isso?

Para sermos fluentes com a linguagem do desenho. Para conseguirmos o domínio dessa forma de expressão precisamos subir “os degraus” desse aprendizado do nível mais básico (o domínio das regras) até o nível mais alto (o do discurso, da expressão) e, quando tudo isso acontecer, de maneira espontânea e fluída podemos nos considerar fluentes.

fluencia

A figura acima elucida bem esse percurso das normas para a fluência. Além disso, as normas (as regras do desenho) são a superfície, a parte mais rasa, mas básica de se desenhar.

Não podemos chamar de fluente uma pessoa que somente copia retratos ou casas. Podemos apenas dizer que ele sabe manipular bem as normas do desenho. Para ser um desenhista com D maiúsculo é preciso muito mais do que isso. É preciso ser criativo, expressivo, desenhar a partir da imaginação e fazer com que as idéias fluam da cabeça pelo braço até o papel.

Desenho enquanto conteúdo

Uma vez que atingimos a fluência e que já sabemos lidar bem com as nossas crenças disfuncionais que bloqueiam nossa criatividade e expressão já estamos nos autodesenvolvendo.

No entanto, o desenho pode ir direto ao ponto no momento que a arte de desenhar se torna uma arte meditativa.

O desenho meditativo no seu nível mais básico pode ser feito em cada seção aplicando 3 métodos auxiliares:

  1. Técnica: No início e no final de cada seção de desenho aplicar alguma técnica meditativa para trazer a mente de volta para o momento presente, para relaxar o corpo e a mente.
  2. Momento presente: Durante o ato de desenhar buscar lembrar do objeto de meditação, por exemplo a respiração, e praticar a mesma toda vez que a mente se dispersar ou que haja algum desequilíbrio emocional.
  3. Reflexão: No final da seção, depois da técnica de meditação refletir sobre o processo de autodesenvolvimento e sobre como isto aparece no desenho.

Somos um organismo conectado, nossa mente, nosso corpo, nossas energias sutis são uma coisa só. Quando riscamos o papel imprimimos em cada traço a nossa impressão digital multidimensional. Se alguém desenvolver um pouco mais sua percepção poderá ver em cada ponto e linha toda a consciência do autor.

Além deste processo de autodescoberta podemos usar o desenho e suas técnicas para a promoção de estados de mente específicos. Por exemplo, se entendo que o desapego é algo que é importante que eu desenvolva buscarei na minha prática de desenho temas, técnicas, estilos que favoreçam isso.

Referências

EDWARDS, Betty. Desenhando com o lado direito do cérebro. 3 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e Filosofia. São Paulo: Cultrix, 1975.

STANCHFIELD, Walt. Dando vida a desenhos, volume II: os anos de ouro das aulas de animação na Disney. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

Photo by rawpixel

Pedro Marcelino

http://escrevendocomimagens.blogspot.com/

Meditação - Iniciou a prática de meditação na adolescência (com seus 14 anos) e a vêm mantendo até os dias de hoje. Praticou com diversos professores, de diversas linhas, se desenvolvendo na meditação budista, com ênfase na tradição Zen. A partir dos seus anos de estudos, pesquisas e experiências, desenvolveu o método das 7 habilidades meditativas, que une a visão oriental e ocidental sobre o autodesenvolvimento.Arte - Na arte, foi ilustrador e animador de diversos projetos da Confor Studio. Trabalhou como animador nos filmes, “Até que a Sbórnia nos separe” e “Cidade dos Piratas”, ambos do estúdio porto alegrense Otto Desenhos Animados. Foi co-autor do Livro-Quadrinhos “Cons – Compreendendo Nossa Evolução” (que está caminhando para a publicação no terceiro idioma – alemão – além do português e inglês). Vivenciando o processo criativo destas e de outras obras, desenvolveu seu método de uso da arte de maneira criativa e ética: a Arte Evolutiva.Artes marciais - Como artista marcial, já praticou: judô, capoeira, jiu jitsu e tai chi chuan. No jiu jitsu (arte marcial que pratica até hoje), foi campeão brasileiro em 2005 e campeão sul brasileiro em 2006. Desde 2012, começou a pesquisar e experimentar o uso das artes marciais no desenvolvimento humano, espiritual, trabalho este que vem chamando de Budoterapia – baseado no caminho do guerreiro pacífico.

Deixe uma resposta