Dar o melhor de si

man and woman doing karate on road at daytime

O judô não é apenas uma arte marcial, mas sim um princípio básico do comportamento humano, porque, antes de tudo, sua função não é nos ensinar a derrubar, mas sim a cair e, sobretudo, a nos reerguer. (UCHIDA, 2013, P.5)

Introdução

Antes de tudo, precisamos ter muito claros sobre o que significa realmente [1] a palavra Budô. Budô é ação, esforço, energia, luta, enfrentamento, ataque, superação, e não apenas arte marcial; é tudo o que fizemos na vida para promover a ação, a realização, para sermos guerreiros.

E para o alcance desta meta precisamos dedicar especial atenção à capacidade de dar o melhor de si.

Dar o melhor de si é se esforçar, é lutar para realizar aquilo que é preciso ser realizado, é cair, não desistir e se reerguer. As pessoas que possuem esta habilidade fazem tudo de uma maneira muito bem feita, são pessoas excelentes, competentes, que transformam o que fazem em obra de arte.

Mas como aprendemos a dar o melhor de si?

Não é possível determinar etapas, uma vez que todos somos singulares, no entanto, podemos visualizar as qualidades mais prioritárias para nos tornarmos bons na habilidade de fazer tudo com perfeição, esmero. À seguir, as qualidades que visualizo como as mais prioritárias para o aprendizado desta habilidade.

Força

A força, ao mesmo tempo que é uma atitude, também é a consequência de um treinamento sistemático. Uma pessoa possui o corpo forte pois já superou desafios que fizeram com que ela desenvolvesse este atributo.

A força é a capacidade de intencionalmente alterar a matéria, a realidade, mudar o curso ou estado de algum objeto. Deste modo, a força depende muito também da inteligência, da concentração e do foco. Se estou em uma luta e preciso usar a força para defender uma queda, preciso saber a técnica de defesa (inteligência) e me focar no esforço de me defender (concentração). Se um destes elementos não é utilizado, sucumbirei ao ataque e cairei.

Quando começo uma luta, quando ataco, quando defendo, o faço com todo o meu ser, com toda a minha concentração e inteligência. Se o fizer com técnica, no tempo certo, com certeza o movimento poderá ser concluído com êxito, caso contrário, meu adversário defenderá.

Além disso, quem dá o melhor de si está mais focado na tentativa e na experiência do que no resultado o que será um agente inibidor do medo, emoção que pode barrar, bloquear a canalização da nossa força e de nossa vontade.

Na habilidade força, também é importante pensarmos na resistência ou manutenção do esforço que é a concentração, o foco. Toda vez que me distraio, perco o foco e, por consequência a força e dificulto o sucesso de minha posição ou golpe. Deste modo, saber utilizar a força é saber ter concentração e manter o foco pelo tempo necessário, sem distrações.

Reerguer

O fundador do judô, Jigoro Kano, deu uma atenção especial a este princípio filosófico. Mais importante do que derrubar é aprender a se reerguer. Se meu adversário, colega de treino, me derruba, ele não só me ensina a cair, mas também a me levantar.

Na vida teremos crises, quedas; mas se cultivamos a habilidade de nos reerguer no tatame poderemos transferí-la para vida e nos levantarmos sempre que necessário. Então toda queda será entendida como aprendizado, todo erro como parte do processo das tentativas.

Ninguém gosta de cair, e é justamente esta experiência desagradável que nos afasta do erro, do fracasso, porém não podemos nos paralisar diante da possibilidade do erro. Toda a tentativa contém em si as duas possibilidades, a do sucesso e a do fracasso. Quem dá o melhor de si percebe isto, pois vê que não pode ser derrotado, mesmo que caia, que seja finalizado, ele sabe como se reerguer. Ele é humilde o suficiente para admitir que não é perfeito e por isso o golpe, a técnica do outro encontrou espaço para se desenvolver e o acertar.

Uma reflexão, um lembrete que pode ser repetido mentalmente no início e no final de cada treino ou de cada dia é este: “se estou aqui para aprender, para me tornar melhor, preciso aprender a cair, a fracassar, a perder e mais do que isso, preciso ser muito bom na arte de me reerguer, de me levantar e tentar de novo.”

Não desistência

No mundo atual, as pessoas desistem rápido e dão pouco de si no que fazem. Talvez por terem medo de sofrer com a decepção de não conseguir ou talvez por não estarem acostumadas a se comportar assim.

Não desistir é suportar o sofrimento. É aprender a lidar com o desconforto, com o desagradável, com a repulsa. Para superarmos a desistência rápido precisamos de um treinamento lento e constante. Por exemplo, quando estiveres lutando com alguém mais forte e esse alguém rapidamente alcançar uma posição de vantagem, continue se esforçando, não desista, mesmo que seus golpes não o atinjam. No final, ele pode lhe vencer tecnicamente, porém o seu exercício de não desistência criou em sua mente o hábito saudável de suportar a dor, de ser mais resiliente. Algo a salutar na vida e no tatame.

Sabedoria

Neste ponto a sabedoria, o discernimento se faz necessário. Precisamos perceber quando não desistir e quando desistir. Se o que estamos fazendo está colocando o nosso corpo em risco ou o corpo do outro em risco, é hora de desistir. Este é o critério: todo o nosso treino, toda nossa vida deve servir ao propósito do bem estar comum. Se conseguimos algo baseado no mal estar, no sofrimento, na exploração, estamos sendo antiéticos, estamos insistindo no erro e isto só irá gerar sofrimento para todos.

Digamos que o seu colega lhe dá uma chave de braço (juji gatame). Você tenta de tudo para defender e o seu movimento ajuda seu adversário a encaixar melhor a técnica. O que fazer? Não desistir? Claro que não. Uma chave de braço encaixada levará a fratura do cotovelo, assim é urgente perceber que não há mais nada ser feito e que é preciso desistir, isto é, declarar a derrota a partir dos 3 tapinhas no tatame ou no corpo do adversário.

Além disso, para darmos o melhor de si precisamos ter a capacidade de produzir força, foco, de nos reerguermos quando fracassarmos e não desistir. Contudo, dar o melhor de si não é sinônimo de não inteligência ou de teimosia, mas sim de discernimento e de sabedoria. Para dar o melhor de mim, em tudo, preciso saber a hora de agir e saber a hora de parar.

Considerações finais

Enfim, além de me dedicar a cultivar essas qualidades a médio e longo prazo, o que certamente melhorará os meus resultados no tatame e no que eu escolher fazer, será mudar o mindset no dia a dia e ter pequenas ações para melhorar minha capacidade de dar o melhor de mim:

  1. Fazer tudo bem feito, com dedicação;
  2. Fazer uma coisa de cada vez;
  3. Depois de fazer algo, revisar o quanto for necessário.

Pedro Marcelino

Referências

UCHIDA, Rioiti e MOTTA, Rodrigo. Uruwashi: o espírito do judô. São Paulo: Évora, 2013.

[1] Literalmente budô é a utilização das artes marciais como um caminho filosófico de autoperfeiçoamento.

Photo by Thao Le Hoang

Pedro Marcelino

http://escrevendocomimagens.blogspot.com/

Meditação - Iniciou a prática de meditação na adolescência (com seus 14 anos) e a vêm mantendo até os dias de hoje. Praticou com diversos professores, de diversas linhas, se desenvolvendo na meditação budista, com ênfase na tradição Zen. A partir dos seus anos de estudos, pesquisas e experiências, desenvolveu o método das 7 habilidades meditativas, que une a visão oriental e ocidental sobre o autodesenvolvimento. Arte - Na arte, foi ilustrador e animador de diversos projetos da Confor Studio. Trabalhou como animador nos filmes, “Até que a Sbórnia nos separe” e “Cidade dos Piratas”, ambos do estúdio porto alegrense Otto Desenhos Animados. Foi co-autor do Livro-Quadrinhos “Cons – Compreendendo Nossa Evolução” (que está caminhando para a publicação no terceiro idioma – alemão – além do português e inglês). Vivenciando o processo criativo destas e de outras obras, desenvolveu seu método de uso da arte de maneira criativa e ética: a Arte Evolutiva. Artes marciais - Como artista marcial, já praticou: judô, capoeira, jiu jitsu e tai chi chuan. No jiu jitsu (arte marcial que pratica até hoje), foi campeão brasileiro em 2005 e campeão sul brasileiro em 2006. Desde 2012, começou a pesquisar e experimentar o uso das artes marciais no desenvolvimento humano, espiritual, trabalho este que vem chamando de Budoterapia – baseado no caminho do guerreiro pacífico.

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